As palavras de Rui Tavares para a apresentação no Salão Nobre
(20 de Novembro 2008)
A lição do vereador republicano
Faz então cem anos que o Partido Republicano ganhou o poder na Câmara Municipal de Lisboa. A intenção que traziam era, creio eu, dupla. Por um lado traziam o ideal de fazer da cidade o espaço da cultura cívica, urbana ou política — o que lhe queiram chamar, porque na raiz estamos sempre falando da mesma coisa, a cidade está na raiz da palavra civismo (civs) como de política (polis), como do adjectivo “urbano” (urbs) usado na origem como sinónimo de ser educado, cultivado e respeitador da diferencia dos outros. É sempre para esse ideal da cidade, para a politeia ateniense ou para a república romana, que os republicanos olham.
Em segundo lugar, a intenção era fazer de Lisboa um laboratório, um lugar onde se experimentassem ideias e se desse liberdade à imaginação dos cidadãos, e que assim se constituísse em modelo do resto do país e — por que não? — de outras cidades e países. Se quiserem, a conquista da Câmara de Lisboa é o anti-regicídio, um momento de afirmação do republicanismo pela positiva, e nunca foi adequadamente lembrado dessa forma. A verdade é que um ano depois a República foi proclamada, vindicando a ideia de que onde Lisboa vai, o país ganha coragem em ir também.
Uma história é a melhor ilustração deste duplo argumento. Conta-a o escritor José Gomes Ferreira nas suas memórias de infância. Nascido no Porto, José Gomes Ferreira mudou-se para Lisboa com os pais no fim da monarquia. Vivia na Penha de França e comemorou o 5 de Outubro de 1910 com uma bandeira verde-rubra ainda não oficial.
O seu pai foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa, não sei se nessa primeira vereação ou logo depois, mas pouco importa. E tinha como principal sonho criar pequenas bibliotecas públicas nos jardins de Lisboa. Muitos cépticos diziam que a medida era ingénua: certamente haveria quem roubasse os livros e as bibliotecas desapareciam passado pouco tempo. Mas o nosso bom vereador republicano insistiu, e as bibliotecas lá se fizeram. Há uma fotografia de Joshua Benoliel que mostra uma em funcionamento no Miradouro de Santa Luzia. E o que aconteceu aos livros, passado pouco tempo? Sucedeu que, quando os foram contar, não havia livros a menos. Havia livros a mais. Em vez de terem sido roubados, houve gente que foi deixar livros nessas pequenas bibliotecas públicas.
Esta história resume bem o idealismo dessa gente, e também a sua visão. Em primeiro lugar, está a ideia de que a cultura acrescenta sempre, nunca subtrai, e que no prazer da cultura, e das ideias, estão as primeiras virtudes políticas. Em segundo lugar, a noção de que é preciso ter coragem, e um pouco de loucura, para experimentar e correr o risco de ver as nossas ideias fracassarem. E que é preciso que essa coragem, e essa loucura, e essa vontade de correr riscos e fazer coisas seja maior do que o cinismo vigente. Esse bom vereador republicano tinha razão, mas mesmo que tivesse falhado, teria razão num sentido ainda mais profundo.
E noutro sentido ainda mais profundo do que esse, de que talvez o próprio vereador não se tenha lembrado, estava a ideia de que a cidade e a cultura eram a mesma coisa, e de que a Lisboa era ela própria como um livro.
Esta ideia é mais antiga e mais real do que parece. Quando foi inaugurada a estátua equestre que ali está na Praça do Comércio, e que simbolizou o fecho do processo de reinvenção de Lisboa após o Grande Terramoto, houve um grande momento de produção literária sobre o assunto. E em mais de um autor, a metáfora escolhida para falar da estátua foi de que ela era como a página de título de um livro. A reconstrução de Lisboa era esse livro, e a estátua apresentava os dois autores desse livro — Dom José I e o Marquês de Pombal. Eles sabiam do que estavam a falar. Em primeiro lugar, porque a Lisboa se chegava nesse tempo pelo rio. A estátua era a primeira coisa que o viajante via. E se repararem na inscrição que está no pedestal da estátua, junto ao medalhão do marquês, ela tem exactamente o arranjo gráfico que tinham os frontispícios livros do século XVIII. Depois de olhada essa primeira página, o leitor-viajante poderia ler o resto da Baixa, que estava organizada ritmicamente rua a rua, página a página como um livro.
A propósito, reparem como são diferentes as cidades em que se chega pelo rio e aquelas onde se chega por uma porta da cidade. Numas (Veneza, Lisboa) desembarcamos pelo centro, pela primeira página. Nas outras vamos entrando camada a camada, como numa cebola. Hoje perdemos um pouco essa noção, porque se chega menos de barco a Lisboa. Mas essa era a ideia dos lisboetas que sobreviveram ao terramoto para reconstruir a cidade: a de que Lisboa se podia ler como um livro, e não foi por acaso que o Marquês queria que na Praça do Comércio fosse a sede de uma grande biblioteca. Para pôr a cultura no centro da cidade e mostrar que uma coisa é condição da outra.
Enquanto falava da Praça do Comércio estive várias vezes para me enganar e dizer “Terreiro do Paço”, como dizemos normalmente apesar de não haver paço nem terreiro com esse nome há mais de 250 anos. Esse é um dos erros mais bonitos que os lisboetas fazem, e indica-nos que a memória por aqui é uma coisa forte. Por detrás desta cidade que temos hoje estão todas as outras Lisboas do passado. Por debaixo, em ruínas arqueológicas, ou imaterialmente, na memória, ou apenas na imaginação, como as cidades que Manuel da Maia pensou após o terramoto, ou à espera de serem descobertas em documentos velhos e nos livros dos olisipógrafos.
Esta é outra figura que é preciso celebrar, a do olisipógrafo, gente como Tinop, e Matos Sequeira, e José-Augusto França, e Vieira da Silva e Sarmento de Matos e Marina Tavares Dias. Não é tão bonito haver uma cidade tão interminável que tem uma disciplina que se dedica exclusivamente a estudar a sua história? Quando comecei a conhecer melhor a Lisboa pré-terramoto, ganhei o hábito de andar pelas ruas da Baixa vendo o que lá não estava. A rua das confeitarias, onde se servia chocolate e café e chá talvez antes de em qualquer outro lugar da Europa, e que vinha terminar aqui. Ou a Casa da Comédia, onde António José da Silva, o judeu, veio ver as primeiras comédias quando não estava preso pela Inquisição — que era um pouco mais acima, no Rossio, perto do Teatro Nacional onde hoje se representam comédias de AJS. No meu caso, nada disto seria possível imaginar sem os olisipógrafos.
Lisboa — a Câmara Municipal de Lisboa — deve abraçar completamente o exemplo desta gente, e assumir a olisipografia como um dos seus interesses. Eu vejo as salas cheias que se juntam de cada vez que o tema duma palestra é Lisboa. Um dia haverá uma Escola da Cidade onde estas coisas se ensinarão e estudarão em permanência, porque o conhecimento de uma cidade é a condição para saber estimar uma cidade. Uma das coisas de que mais necessitamos é de promover uma cidadania cultivada de Lisboa. Cultivada no sentido em que se educa e se desenvolve sempre. Há que dar condições para que essa experiência seja rica, e produtiva, porque isso dará mais exigência para os lisboetas que devem cuidar da sua cidade — que somos nós aqui e nós lá fora.
Uma cidade é uma coisa que se desdobra e declina infinitamente de forma diferente para cada pessoa. E assim vai até ao tempo em que os romanos chegaram aqui e chamaram a Lisboa Felicitas Iulia Olisipo, o primeiro nome oficial que a cidade teve. Olisipo porque era o nome — meio misterioso — que a cidade já tinha; Iulia porque foi dedicada a Júlio César, Felicitas porque lhes pareceu um nome feliz para uma terra feliz.
Felicitas é o primeiro nome da cidade, e é de facto um nome feliz. Para que servem as cidades, afinal? Para se ser feliz. É por isso que moramos aqui, uns em cima dos outros, para estarmos próximos uns dos outros, e falarmos nos ouvirmos e aturarmos uns aos outros, o que traz por vezes uma certa dose de desespero — mas fazemo-lo para sermos felizes. E olhem que a maior das vezes funciona.
Os meus colegas deste conjunto de peritos deram-me esta incumbência de falar hoje aqui, e uma vez que sou historiador, acabei falando muito do passado. Peço que me perdoem. Eu falei do passado, mas eu não falei do passado. Ao fazê-lo, tentei resumir o espírito que nos anima a todos. Não poderíamos faltar ao chamado de dar ideias para a nossa querida Felicitas. Mas creio que mesmo este breve resumo nos dá ideia das exigências que isso traz consigo.
Em primeiro lugar, entender a cultura como a experiência política central da cidade, e algo muito mais vasto do que se costuma significar com a mera palavra “cultura”. Para nós, cultura é muito mais do que um espectáculo ou um museu. Como para aquele vereador republicano, a cultura abrange o conhecimento e a política e é um trampolim para a liberdade dos cidadãos.
Em segundo lugar, entender Lisboa como uma cidade de séculos e milénios, e não de décadas ou de modas. Uma visão estreita da cultura pode dar uma cidade muito interessante para o turista que vem uma vez ou para o jornalista estrangeiro mais entusiasmado. Mas uma visão ampla da cultura dá uma cidade boa para quem cá vive, para quem quer vir viver para cá, e que será boa para o resto também.
Em terceiro lugar, entender tudo isto como não apenas ideias gasosas mas coisas palpáveis. Quando o vereador republicano teve a sua ideias, não a teve em abstracto, o que pensava era mesmo nos seus livros e nos jardins e nas mãos das pessoas a pegar neles. Podem ter a certeza que ele já via a coisa concretizada na sua cabeça. Para ele o diagnóstico de que os portugueses eram ignorantes e analfabetos era uma coisa que já tinha ouvido muitas vezes. O diagnóstico interessava-lhe menos do que o prazer de ver a coisa feita e perguntar-se “não seria bom esta gente toda a ler nos jardins públicos”?
Também nós vemos coisas na nossa cabeça que já estão como se fossem concretizadas e pensamos como seria bom. E algumas, posso adiantar-vos desde já, também parecem malucas. Vamos falar com muita gente, durante este processo, que também tem as suas. E os vereadores e deputados da AML e o presidente da CML também têm as suas. E os lisboetas todos também. E essa confusão é muito boa, desde que as ideias se tornem coisas palpáveis. Se assim não for, teremos falhado.
Essa é última lição do vereador republicano. Para ele, falhar não era pôr os livros nos jardins e depois haver quem os roubasse. Para ele, falhar era não ter posto os livros nos jardins. O nosso ânimo é exactamente esse. Obrigado.